.comment-link {margin-left:.6em;}

Macondian Way of Life

Todas as novidades de Melquíades.

5.6.10

Beuys e Chacrinha

Encontrei uma crítica que escrevi no Festival de Teatro de Curitiba em 2003, sobre "Aqui você verá lebres" e "Bandulho", da Cia Silenciosa, e "Arrastom", do Grupo Processo. Recordar é viver.


O quadro do anglo-japonês pregando em inglês (com tradutora) para um punhado de prováveis fiéis na rua XV já prenunciava. Algo estava podre na terra do leite quente.

Minutos mais tarde, um enxame de atores escondidos brotava no chafariz e arredores mostrando lebres e outros animais mortos, para desespero do japonês e trupe, bem ao lado. Já era um dia outonal de Curitiba (a cidade ideal quando se é um sapo), com as exigências que lhe são peculiares, como cachecóis e guarda-chuvas (vai que...), o que só aumentava a estranheza dos atores pesadamente vestidos sob os esguichos de água.

Se “A hora em que não sabíamos nada uns dos outros” – inevitável comparação – era bocejante devido talvez ao pé fincado no modernismo, “Aqui você verá lebres e outros animais mortos manipulados por atores escondidos” é um libelo sobre o trânsito calvinista, uma lupa sobre o sacrossanto chafariz, uma chacrinização da Capital Social e de sua intelligentzia de cintura dura.

Caso Joseph Beuys carregasse sua lebre morta no colo até a frente da loja C&A na tarde do dia 25, teria que explicar-lhe uma bailarina de maiô, ensimesmada em sua ciranda; uma nadadora egocêntrica; uma aspirante a cantora de ópera que usava esguichos como microfone; uma banhista que enchia balões; uma indigente seqüestrada pelo serviço secreto americano que, excepcionalmente, estava aceitando reais (a indigente, não o serviço secreto americano, infelizmente). E, tarefa mais difícil, Beuys teria que explicar à sua lebre um misterioso engravatado que ignorava a curva que o chafariz impunha ao trajeto dos transeuntes.

A Companhia Silenciosa interferia na urbe com bom humor, carnaval e anarquia. Oferecia a cena com aquele sabor do mal-feito, com a estética do mal-polido, contrastando, inclusive ideologicamente, com as pièce-bien-fait preferidas pela platéia do FTC.

O mesmo paladar (herdado de um Asdrúbal Trouxe o Trombone?) emana de “Arrastom”, do Grupo Processo (origem de parte da Companhia Silenciosa). Na peça-plágio, os arteiros tiram Tom Zé para dançar (um tango silencioso, um musical do Stomp, o melô do Abacaxi-de-Irará) e cantar (a propaganda de Cremogema, a história de Ludovico van Beethoven, a cena de cabaré de “Mullholand Drive”, o hino brasileiro invadido por Bush, Sadam e bin Laden). Mostrando que também a arte é reciclável, “Arrastom” dessacraliza a cena, teatro “é um boteco, não uma igreja”. Para quem pouco se lixa, os arteiros oferecem lixas de unha.

Bandulho” é também arte para “quem quer ser José”, como no manifesto de “Arrastom”. Também da Companhia Silenciosa, a peça expõe as vísceras do amor: um Capitão Gancho cortando o bucho – o bandulho – de Roberto Carlos, até que vazem dele todas as canções de amor, como aquela que canta o estuprado. Em tempos de anti-imperialismo, a peça condena a xenofobia e antropofagiza fragmentos de diálogos amorosos em inglês, alemão e, por que não?, português. Lembra Gerald, (o bom Gerald, de “Ventriloquist”, por exemplo) com todas as devidas proporções guardadas em gavetas adequadas.

A serviço da tarefa louvável de fazer desteatro, os três espetáculos (ou ÓVNIS, ou pedregulhos, “arte é tudo aquilo em que se tropeça”) são ecos da voz de uma geração de criadores curitibanos esforçados em mostrar que a saída para a arte da cidade não está apenas no Afonso Pena. É uma grande promessa se considerados o esvaziamento artístico da maior fatia da classe teatral mainstream-huguenote local e a puerilidade de uma crítica teatral que se assume não-especializada ou que repete o bordão “tarefa-hercúlea” em três textos por semana.

14.1.10

Sob o pavimento, a praia.

Este texto foi escrito para a edição comemorativa do Jornal Quixote sobre os 40 anos do maio de 68. Como a edição não saiu, o texto ficou órfão. Publico aqui, para alguém que tiver paciência de lê-lo.

***

Sob o pavimento, a praia.

Várias ruas do centro de Paris no final da década de 60 eram pavimentadas com paralelepípedos de formato cúbico, unidos uns aos outros apenas por uma fina camada de areia amarelada. Era promessa da praia, soterrada sob o pavimento: “Sous les pavés, la plage”, escrita num muro da cidade naquele maio de 68. A praia seria lúdica, não-hierárquica, insurrecional. O pavimento era o exato contrário de tudo isso: a França gaullista, na qual se temia “morrer de tédio”, de acordo com um jornalista do Le Monde em março daquele ano.
A sede pela praia vinha de uma profunda crise de autoridade, identidade e representação na sociedade francesa. Os estudantes, operários e camponeses que se uniram nas manifestações não reivindicavam apenas melhorias salariais, nem apelavam somente por reformas políticas ou mudança de governo. A contestação de 68 queria mais. Queria mudar a vida, as relações que constituíam a família, as relações sexuais, o estado, a igreja, a educação – todas as instâncias de exercício do poder.
“Seja realista, exija o impossível”, “Ë proibido proibir”, “A imaginação no poder”, “O sonho é realidade”, “Eles compraram sua felicidade. Roube-a!”, “O respeito foi perdido. Não vá procurá-lo!”, “A arte morreu. Não há nada que Godard possa fazer quanto a isso”, “Como se pode pensar livremente à sombra de uma igreja?”, “Numa sociedade que aboliu todas as aventuras, a única aventura que resta é abolir a sociedade”, “A revolução é incrível porque é real”, “Vamos banir o aplauso, o espetáculo está por toda parte”, “Quanto mais eu faço revolução, mais quero fazer amor. Quanto mais faço amor, mais quero fazer revolução”, “A poesia está nas ruas”, “Mesmo se Deus existisse seria necessário aboli-lo”, “Trabalhadores de todo o mundo, divirtam-se” - o 68 francês foi pródigo em frases de efeito, em unir contestação radical e criatividade. Essa característica não encontrava abrigo nos espaços convencionais de oposição (o Partido Comunista e os sindicatos). Eram necessárias novas formas de organização política e de ação coletiva. O espírito de 68 era o de suprimir as esferas separadas de “trabalho” e “lazer”, “vida” e “arte”, em direção a um continuum espontâneo que aglomeraria liberdade, autonomia pessoal e internacionalismo.
A pré-história dos protestos em Paris teve dois eventos que merecem ser relevados. O primeiro deles em 1966, quando uma chapa de alunos concorreu ao Diretório Acadêmico da Universidade de Estrasburgo com a plataforma de acabar com o próprio Diretório. Eles foram eleitos, e recorreram à Internacional Situacionista, um grupo de agitadores políticos (dentre eles, Guy Debord), para levar a cabo seu plano. Publicaram, então, esgotando os recursos do Diretório, uma edição de luxo de 10 mil exemplares do panfleto “A Miséria do Meio Estudantil – Considerada em Seus Aspectos Econômico, Político, Psicológico, Sexual e, Mais Particularmente, Intelectual, e Sobre Alguns Meios Para Remediá–la”. O texto era uma contundente e provocativa crítica ao papel político dos estudantes na França de então (“os estudantes são as criaturas mais universalmente desprezíveis na França, com exceção dos padres e dos policiais”). Por uma decisão judicial, o diretório foi efetivamente fechado em dezembro daquele ano. O juiz responsável pelo autos do processo escreveu: “os estudantes, ainda há pouco adolescentes, desprovidos de qualquer experiência, com a cabeça repleta de mal digeridas teorias filosóficas, sociais, políticas e econômicas, e sem saberem como dissipar o seu melancólico aborrecimento do dia-a-dia, emitem a vã, orgulhosa e irrisória pretensão de produzir juízos definitivos e indignamente injuriosos sobre os seus condiscípulos e professores, sobre Deus, as religiões, o clero, os governos e os sistemas políticos e sociais do mundo inteiro, e, depois disto, rejeitando qualquer moral e quaisquer entraves legais, não hesitam sequer em louvar o roubo, a destruição dos estudos, a supressão do trabalho, a subversão total e a revolução mundial proletária ininterrupta a fim de se gozar sem impedimentos”. Sem querer, o juiz acabou por fazer uma apurada caracterização daquela geração de estudantes franceses e contribuiu para a aclamação das idéias situacionistas.
Em 22 de março de 1968, um grupo de 142 estudantes ocupou o prédio da administração da Universidade de Paris em Nanterre, protestando contra a burocracia política que controlava os fundos educacionais na França e pela libertação de um estudante que tinha sido preso por uma manifestação contra a guerra do Vietnã dias antes. Após a publicação de uma carta contendo suas reivindicações, os estudantes desocuparam o prédio, mas os conflitos com a direção da universidade continuaram pelos meses subseqüentes, até que no dia 02 de maio vários estudantes foram expulsos e a universidade fechada.
A resposta estudantil não tardou. No dia seguinte, os estudantes convocaram uma assembléia na Universidade Sorbonne, no Quartier Latin, em Paris. O reitor solicitou a intervenção da força policial para “expulsar os perturbadores”. Após isolar a área e quebrar uma lei que impedia ação policial dentro da universidade, os policiais detiveram cerca de 400 estudantes. No entanto, quando os “perturbadores” estavam sendo transportado para as delegacias, três mil estudantes se agrupavam no exterior da universidade. Às cinco da tarde começou a batalha de rua entre os policiais e os manifestantes. Granadas de gás lacrimogênio foram arremessadas contra a multidão, que respondeu lançando paralelepípedos arrancados da rua. A Sorbonne foi fechada e barricadas foram montadas. A praia começava a ser descoberta.
Nos dias 06 e 10 de maio grandes conflitos envolveram manifestantes e policiais, resultando em centenas de ferimentos e detenções. Percebendo a ameaça que os eventos representavam ao governo, o primeiro-ministro George Pompidou voltou de sua viagem ao Afeganistão e cedeu às reivindicações dos manifestantes: anistia dos estudantes detidos, evacuação das forças policiais do Quartier Latin e reabertura da Sorbonne. Ele acreditava que com isso conseguiria conter a onda de engajamento que tomava conta do país. Ledo engano.
No dia 13, a Sorbonne reaberta foi ocupada pelos estudantes, que a declararam “universidade popular autônoma”. Cerca de um milhão de trabalhadores ocuparam as ruas em trinta cidades francesas, em greve geral convocada pelos sindicatos. Comitês de ocupação e conselhos operários foram formados. Vários liceus, cinemas, teatros, fábricas e universidades foram ocupados nos dias seguintes. O Festival de Cannes teve várias exibições suspensas por cineastas solidários ao movimento. Maio de 68 deixava de ser um fenômeno estudantil para se tornar a maior greve do pós-guerra na Europa, com mais de 10 milhões de trabalhadores, camponeses e estudantes envolvidos, o que representava dois terços da mão-de-obra francesa.
No mesmo dia em que a bolsa de valores parisiense foi incendiada, 24 de maio, o presidente Charles de Gaulle anunciou a realização de um referendum em junho sobre a participação popular no governo. A reação não foi a esperada. Em todo o país, os manifestantes não se mostraram satisfeitos com a proposta, o que fez com que Pompidou começasse uma negociação com os sindicatos no dia seguinte, que acabou por determinar um aumento dos salários, diminuição da idade para aposentadoria e diminuição da carga de trabalho. Mesmo assim, os protestos continuaram.
No dia 30, embalado por uma demonstração de apoio de quase um milhão de pessoas, De Gaulle anunciou a dissolução do congresso, o adiamento do referendum e eleições parlamentares para o mês seguinte.
Junho começou com a polícia evacuando teatros, indústrias e universidades. Vários movimentos de extrema-esquerda foram dissolvidos, e as manifestações foram oficialmente proibidas no período eleitoral. O espírito libertário de maio parecia perder o seu fôlego, o que de fato se confirmou nos resultados das urnas: De Gaulle obteve uma significativa vitória na composição do parlamento.
Mesmo que os alcances políticos dos eventos de 1968 na França tenham sido limitados (afinal, mesmo após a renúncia de De Gaulle, em 1969, George Pompidou foi eleito presidente), resta que, no plano cultural e simbólico, foi a mais contundente contestação da ordem existente na segunda metade do século XX. De uma maneira inusitada, estavam reunidas sob a mesma insatisfação a classe trabalhadora e a intelectualidade francesa. O conceito de participação política foi, também, totalmente reformulado. Os indivíduos demandavam uma revolução que estava nos costumes e nas relações inter-pessoais, e essa revolução não podia ser delegada – eles mesmos precisavam vivê-la.
68 representou uma mudança paradigmática na liberação sexual (com o advento dos anticoncepcionais, a luta pró-aborto, pelo direito das mulheres e sufrágio universal), na oposição dicotômica entre os modelos capitalista e socialista (com a denúncia dos estados comunistas totalitários e a proposição de uma alternativa autônoma e sob auto-gestão), na pedagogia escolar, dentre tantos outros aspectos da vida cotidiana. Ainda que por um breve momento, a praia vislumbrada em 68 se apresentou como utopia possível, uma zona autônoma temporária a ser lembrada a todos aqueles que hoje argumentam que a história acabou.

4.7.09

Tintas

O pior é quando o anjo torto,
ao invés de lhe dizer pra ser gauche,
insiste pra que você seja guache.

2.5.09

Tuíter

E as idéias infames de epitáfios do post anterior me incentivaram a entrar no mundo de twitter. Check it out!

Para a lápide

Ouvi estes dias um epitáfio de que gostei: "Valeu pela experiência!" Uma variação possível: "Foi bom para o curriculum".

10.12.08

Pequenos Acidentes Cotidianos IV

Ele era um website. Da época em que as pessoas diziam "website" e "hotlink" e que você ouvia um som irritante quando a internet conectava. Vivia num host semi-abandonado, tipo geocities. Mas, romântico, sonhava em ser um príncipe encantado.
Ela era uma navegadora da web. Da época em que as pessoas "navegavam pela rede", e que a metáfora era adequada. Era saudosista, pensava "que tempo bom aquele do Napster". Não queria nem ouvir falar de Windows Vista. Convencê-la a trocar o 98 pelo XP já tinha sido um suplício.
Tinham sido feitos um pro outro, mas nunca tinham se cruzado. Um dia, se encontraram por acaso, numa busca do google. Ele, cansado da vida em html e da falta de visitas denunciadas no contador, pediu que ela lhe desse um beijo, para que ele, finalmente, tomasse forma humana. Ela resistiu, mas, no final, pensou "por que não?". Fechou os olhos e fez biquinho.
Mas aí deu um erro 503 e tudo o que ela conseguiu foi melecar o monitor com saliva. Sobre ele, nunca mais ouvimos falar.

29.5.08

Pequenos Acidentes Cotidianos III

Não que ele sempre tivesse sido inseguro, mas Astolfo tinha, de uns tempos pra cá, perdido a confiança em si mesmo. Andava cabisbaixo, meditabundo. Errava o cesto quando arremessava o papel no lixo. Ficava se achando feio, mal-vestido, barrigudo, com bafo e caspa. Às vezes até tinha uma euforiazinha, e ele achava que a maré de desassossego já ia baixar. Mas, que nada, noutro dia lá tava ela de novo.
Astolfo tinha um coração remendado com durepox, que doía quando bombeava sangue. E doía também quando Astolfo se concentrava pra que ele não bombeasse. Talvez fosse isso que o deixara inseguro e ansioso. Mas Astolfo não estava bem certo.
Ele reclamava muito, até porque Astolfo não conseguia represar as palavras em sua boca, e elas vazavam pelo canto dos lábios. Só quando pensava nas crianças mudas telepáticas ou quando se mirava no exemplo das mulheres de Atenas ele se tolhia e pensava: "Ô Astolfo, largue mão e vá carpí!" Ou, como diria o Analista de Bagé, "te preocupa com a defesa do Guarani e larga o infinito"! Mas Astolfo nem conseguia plagiar o Luiz Fernando Veríssimo, apesar de tentar.
Depois de um tempo, a insegurança de Astolfo era tanta que ele não conseguia ter certeza se Paramaribo era mesmo a capital do Suriname, ou como se fazia uma casinha com o tangran.
Astolfo adquiriu o hábito de desviar-se de qualquer assunto que necessitasse de uma defesa de posição, de uma opinião mais acalorada. Já não mais olhava no olho de ninguém, e não mandava e-mails, poemas, scraps, nem mesmo fazia telefonemas, no temor de que não fossem bem recebidos, ou que fossem deletados tão logo lidos. Ele tinha vergonha até mesmo de escrever um post no seu blog.
Certa manhã, depois de despertar de sonhos intranqüilos, Astolfo encontrou-se em sua cama, metamorfoseado em um conto de Kafka. E nós só sabemos hoje de sua história porque Max Brod, o amigo-da-onça do escritor, não cumpriu o último desejo do checo e não mandou Astolfo e os outros contos pra lata do lixo.

26.5.08

Nenhuma derrota é definitiva

Em 2002, em Florianópolis, entrevistei Roberto Bui, membro do coletivo literário Wu Ming Foundation e uma das cabeças por trás do Projeto Luther Blissett. Além de render a entrevista e um artigo publicado em um congresso em 2003, o encontro com Bui foi a primeira faísca para o doutorado que agora desenvolvo. Retomei recentemente o contato com ele, para pesquisar os grupos atuantes na resistência ao capitalismo contemporâneo. Na nossa troca de e-mails, o tom dele é de frustração: segundo Bui, o movimento foi derrotado. Mas, ele salienta, nenhuma derrota é definitiva, e as forças submersas podem emergir a qualquer momento. Eis aqui o que eu e ele escrevemos.

Roberto,

Primeiro, desculpe por minha demora. Estive na França cobrindo as celebrações dos 40 anos do maio de 68 e acabei de regressar.

Eu tive a idéia para a minha pesquisa durante nossa entrevista [em 2002]. Naquela época eu estava interessado no plágio como uma estratégia criativa. Agora eu quero ir um passo adiante, e pesquisar a resistência ao capitalismo. Isso é um pouco amplo, e estranho (ao menos no Brasil) quando se está sob o Departamento de Teatro, mas meu ponto é o seguinte: Eu reconheço que o movimento contemporâneo contra o capitalismo (G8, OMC, etc) tem diferentes táticas se comparado com a “oposição clássica” (Partidos Comunistas, Organizações Trabalhistas). Estas “táticas” (e estou aqui interessado principalmente na ação direta) incluem alguns “pontos estéticos”, isto é, podem ser vistas como a emergência de uma performance. Claro que protestos e manifestações não pretendem ser “artísticos”, mas, ainda assim, há alguns “aspectos espetaculares” que são parte dos eventos. Este é meu foco.

Me lembro que você disse ter conexão com os Tute Bianche. Penso que este é um bom exemplo de protesto-performance.
Bem, o que gostaria de te pedir é uma apreciação sobre o tema, uma entrevista, e alguns contatos com pessoas que você ache que sejam parte deste processo.
Por exemplo, estou tentando entrar em contato com John Jordan, mas não consigo encontrar o seu e-mail. Estou em contato com os Space Hijackers também.

Espero que isto seja ok pra você.

Saudações,

F.

Caro Fabio,

Eu entendo o seu ponto. O problema é, temo não ter nenhum contato útil para compartilhar com você. Neste momento preciso, eu não sei de nenhuma intervenção estética organizada na política de movimentos. Pelo menos não na Europa. O movimento antiglobal foi derrotado, e na Itália – um país que está vivendo um de seus mais sombrios períodos na história – há conflito social, mas é mais “tradicional”, se é que você me entende. Quando nos encontramos em Florianópolis, a experiência do Tute Bianche já havia acabado, mas ainda havia uma riqueza de formas e intervenções. Agora é um período mais difícil, no qual a inteligência coletiva radical está trabalhando mais “disfarçada”, em contextos menos visíveis. Há uma cena literária muito rica e radical, um movimento que chamamos de “O Novo Épico Italiano”, mas não é performático nos termos que você descreve.

R.

Temo que você esteja certo. O momento entre Seattle 99 e Gênova 01 foi realmente fértil para o movimento antiglobal. Eu sabia que o Tute Bianche tinha parado, assim como o Reclaim the Streets, mas eu esperava que algo ainda estivesse vivo. Na França, eu fiquei impressionado com o movimento dos Sans Papiers – eles não são performativos, mas são muito presentes. Claro, estão lutando contra a dura política do Sarkozy... Aqui, em Londres, eu noto que há algo acontecendo nos squats. Ouvi falar sobre o “No tendrás uma casa em la puta vida”, da Espanha, sobre habitação...

Qual sua opinião sobre a derrota do movimento? Está relacionada com o pós-11 de setembro e a guerra contra o terror? A América do Sul parece estar em um momento “de esquerda”, mas isso não gera movimentos populares, além do tradicional Movimento dos Sem Terra.

F.


Bem, Fabio, primeiro deixe-me dizer que nenhuma derrota é definitiva. Eu acho que estes movimentos vão ressurgir porque tenho certeza que essa rede de pessoas está ainda trabalhando, entrando em contato umas com as outras, pensando, criando ferramentas e conceitos, e conflito é inevitável em sociedade. Claro que o período da “guerra contra o terror” tem sido (e é) muito duro. Eu concordo que os Sans Papiers são a mais interessante subjetividade atual, se encontrarmos uma maneira efetiva de conectar suas lutas na Fortaleza Europa com a herança das contra-culturas e radicalismo por todo o continente, será um passo cognitivo adiante.

No que concerne a Itália, o movimento (ao menos suas correntes mais organizadas) cometeram suicídio ao fazer todos os erros que podiam. Eu acho que o mais significante caso de estudo é o dos “Desobedientes”, o grupo que nasceu quando o Tute Bianche declinou.

Após a impiedosa repressão em Gênova e o golpe de 11 de setembro, a situação no país ficou mais dura e o sonho se despedaçou. Já no verão de 2003, o movimento estava numa crise profunda. Ele regressou a uma presença marginal no país, uma presença que ocupava o espaço semântico da extrema-esquerda tradicional. O velho papel chato desempenhado em regras chatas.

Os fóruns sociais falharam não apenas em providenciar uma “síntese”, mas também em dar sentido ao que aconteceu, porque um bando de “movimentistas” semi-profissionais os tomaram. Eles cometeram todos os tipos de erros e provaram ser grotescamente inadequados. Tática e estratégias sub-leninistas fossilizadas reapareceram. Um monte de tempo e de energia foi dissipada em guerras de identidade intra-grupos. Reuniões se tornaram patéticas brigas de galo. A maioria dos ativistas sensíveis e “não arregimentados” (especialmente mulheres) se encheram e saíram. Nós, o coletivo Wu Ming, estávamos entre os que se chatearam muito cedo. Mesmo antes de Gênova nós criticamos severamente esta tendência, escrevendo um conto satírico intitulado “O Enclave Social de Bolonha”. Quando nos encontramos em Florianópolis, eu ainda achava que o movimento tinha os anti-corpos necessários para se defender contra este tipo de doença. Eu estava errado.

A opinião pública pegou estas mudanças muito lentamente. A mídia não tinha idéia. A esquerda oficial (especialmente a Rifondazione Comunista) não tinha idéia. Os camaradas não tinham idéia. Uma casta de auto-proclamados porta-vozes – coronéis sem exército – aproveitaram o gap temporal e se venderam como líderes poderosos. A guerra da comunicação de guerrilha foi substituída pela mais óbvia câmera-mercadoria. O suicídio e a agonia do movimento foi televisionado ao vivo, dia após dia. Um desses porta-vozes virou um membro do parlamento, como “um representante dos movimentos”. Revoltante.

Claro que havia muita má fé nestes comportamentos, e carência de inteligência, mas talvez a crise fosse inevitável: mais provável, as forças sociais que formaram o movimento (sejam lá quais tenham sido) eram ainda imaturas. E, ainda em 2002 a sociedade italiana estava em alvoroço, a oposição ao governo do Berlusconi e a futura guerra do Iraque estavam ganhando seu momentum. De fato, era muito difundido. Havia greves todo dia, e piquetes, boicotes, ocupações, todos os tipos de manifestações. As pessoas falavam de uma “primavera dos movimentos”. Somente os burocratas desacreditados que se descreviam como “movimento de movimentos” tinham pouco envolvimento na luta. Quando um dos “porta-vozes” buscou uma foto oportunista num acampamento anti-nuclear na Lucânia, foi quase chutado pelos manifestantes. A primavera dos movimentos não queria nada com o inverno dos descontentes sectários.

Nesta época a Wu Ming tinha se distanciado disso tudo. A colaboração direta entre nós e os Tute Bianche durou um pouco mais de um ano: das manifestações anti-OECD [Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento] em Bolonha (junho de 2000) até os últimos meses de 2001.
Este é o ponto mais desolador da história. Como os Tute Bianche deram caminho para os “Desobedientes”.

Eu não posso falar disso de maneira imparcial, porque os desdobramentos dos eventos me deixaram de coração partido. Me lembro que levou vários meses para superar a tristeza, ainda me sinto magoado.

Havia pelo menos duas tendências entre aqueles que usavam as batas brancas: um considerando a roupa como uma ferramenta à disposição de todo o movimento, outro a considerando uma identidade. Havia ativistas falando sobre a roupa branca, e ativistas falando sobre os Tute Bianche, em maíusculo, como um grupo organizado. Isso sem dizer que nós estávamos entre os primeiros, e em severa oposição aos últimos.

Nas manifestações anti-G8 em Gênova, ninguém usou a bata branca. Nós coletivamente decidimos estender a prática da “desobediência civil acolchoada1” o máximo possível. Mesmo um símbolo aberto como o das batas brancas teria atrapalhado esta extensão. Era como uma referência a essa prática comum que aqueles que caminhavam saindo do estádio Carlini se chamavam de “desobedientes”. Daí os carabinieri mataram Carlo Giuliani, e as manifestações foram postas à deriva pela repressão. Naquela noite nos sentimos como alvos móveis. Estávamos aterrorizados, e ainda assim precisávamos responder, tínhamos que tomar as ruas novamente. Nossa única esperança era que o máximo de pessoas possível fosse para Gênova demonstrar sua solidariedade. No dia seguinte, 300 mil pessoas apareceram para nos salvar. Elas não eram os militantes radicais: os militantes radicais já estavam na cidade. Aquelas eram pessoas comuns com sentimentos democráticos, que se indignaram com a carnificina que viram na televisão. Eu sempre serei grato àquela multidão, enquanto eu viver. Naquela manhã de sábado, eu prometi a não trair aquelas pessoas. A salvação estava em se manter com a cabeça aberta, honesto e compreensível. A salvação estava em se manter distante do sectarismo.

Infelizmente, dentre os “desobedientes” do estádio Carlini, havia alguns estrategistas auto-suficientes que interpretaram exatamente o oposto: a repressão tinha sido possível porque não tínhamos sido duros o suficiente (!) De acordo com eles, a salvação estava em formar um grupo coeso, homogêneo e arregimentado. Não necessariamente pequeno, mas certamente rigidamente organizado. Aliança seriam possíveis, mas não fusão ou simbiose com o resto do movimento. Eles acreditavam que a abertura excessiva era perigosa porque fazia baixar a guarda. Claro que esta posição não era expressa de maneira tão clara, havia vários circunlóquios floreados, mas o conteúdo era inequívoco, fedia a fisiculturismo e a bravatas, a visão-curta e sectarismo.

Havia também a pseudo-análise. Me lembro dos detalhes da conversa com um camarada do Vêneto. Ele disse que o movimento estava entrando em uma fase “descendente” e que era necessário “fortalecer a organização”, para que pudéssemos resistir em tempos de crise. Eu disse-lhe que, na história dos movimentos sociais, aquela estratégia sempre tinha falhado. Sempre que você constrói um pequeno grupo cujo objetivo é sobreviver à crise, você está colocando a crise no centro do projeto, e o projeto devorará a si mesmo.

Além do mais, o movimento ainda não estava em crise: suas correntes organizadas estavam, porque não foram capazes de prever a repressão em Gênova, e também foram incapazes de prever o resgate de 300 mil pessoas. Era uma situação paradoxal: fracasso e sucesso misturados, a simplificação era perigosa.

Nós fortemente nos opusemos a essa degeneração: acreditávamos que não havia sentido renunciar ao papel central que ocupávamos no movimento, e virar a enésima versão de um partido auto-referencial.Contudo, nós éramos escritores, artistas, você sabe, artistas tendem a ter imaginação demais, nossos avisos foram julgados exagerados até pelos camarada mais sensíveis. “Não há necessidade de alarde, amigos, que mal pode vir de um pouco de reorganização?” Quando eles perceberam que estávamos certos, já era tarde demais. Sai os Tute Bianche, entram os Desobedientes, em maiúsculas e entalhado na lápide do movimento. Nós sentíamos que os Desobedientes haviam traído a multidão. No ano seguinte, muitos camaradas saíram do grupo, que rapidamente se tornou um monstro Frankenstein ideológico: uma práxis Stalinista, uma mente paranóica e uma linguagem parodiada dos zapatistas. Eles tentaram se fixar em várias cidades, e provaram ser intolerantes com os dissidentes. Em vários casos, chegaram mesmo a combater camaradas de outras correntes do movimento, especialmente anarquistas.

Enquanto o movimento agonizava como um todo e os fóruns sociais esmaeciam, os Desobedientes se tornaram cada vez mais marginais. Todos os seus projetos sob a marca “Global” (Global Magazine, Global Radio, etc) eram fracassos ridículos. Eles eram especialmente entusiasmados em se auto-promover (enganosamente, claro). Eles costumavam ir a outros países (Espanha, Alemanha, França) e descrever uma situação italiana que só existia em suas cabeças. Eram poucas dúzias de pessoas posando como uma vasta rede. Eram as sobras de esquerda radical tradicional, mas tentavam soar inovadores parodiando metáforas do Subcomandante Marcos. Sua linguagem em breve se tornou uma “linguagem de madeira”, enrijecida e tediosa, distante da realidade e das emoções. Um elemento particularmente irritante era a cópia da linguagem de Morpheus no Matrix. Eram uns chatos tentando se mascarar de descolados e cool... e soando ridículo. Naquela época, eu usei a técnica do cortar-e-colar e fiz um exemplo perfeito de propaganda Desobediente: “Os irmãos e irmãs do Movimento de movimentos e do movimento de homens e mulheres Desobedientes colocarão os seus corpos em risco e desobedecerão a Matrix em nome da desobediência social”, o que simplesmente significava: “Vai haver uma manifestação”. Por sorte, tudo isso acabou. Eu não ouvi falar deles por muitos anos, acho que foram engolfados por sua própria insignificância.

O problema é que este tipo de parasitas vai sempre existir e tentar tomar o controle dos movimentos. Eu só posso esperar que o próximo movimento seja maduro o suficiente para exclui-los imediatamente.

R.