Este texto foi escrito para a edição comemorativa do Jornal Quixote sobre os 40 anos do maio de 68. Como a edição não saiu, o texto ficou órfão. Publico aqui, para alguém que tiver paciência de lê-lo.
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Sob o pavimento, a praia. Várias ruas do centro de Paris no final da década de 60 eram pavimentadas com paralelepípedos de formato cúbico, unidos uns aos outros apenas por uma fina camada de areia amarelada. Era promessa da praia, soterrada sob o pavimento: “Sous les pavés, la plage”, escrita num muro da cidade naquele maio de 68. A praia seria lúdica, não-hierárquica, insurrecional. O pavimento era o exato contrário de tudo isso: a França gaullista, na qual se temia “morrer de tédio”, de acordo com um jornalista do Le Monde em março daquele ano.
A sede pela praia vinha de uma profunda crise de autoridade, identidade e representação na sociedade francesa. Os estudantes, operários e camponeses que se uniram nas manifestações não reivindicavam apenas melhorias salariais, nem apelavam somente por reformas políticas ou mudança de governo. A contestação de 68 queria mais. Queria mudar a vida, as relações que constituíam a família, as relações sexuais, o estado, a igreja, a educação – todas as instâncias de exercício do poder.
“Seja realista, exija o impossível”, “Ë proibido proibir”, “A imaginação no poder”, “O sonho é realidade”, “Eles compraram sua felicidade. Roube-a!”, “O respeito foi perdido. Não vá procurá-lo!”, “A arte morreu. Não há nada que Godard possa fazer quanto a isso”, “Como se pode pensar livremente à sombra de uma igreja?”, “Numa sociedade que aboliu todas as aventuras, a única aventura que resta é abolir a sociedade”, “A revolução é incrível porque é real”, “Vamos banir o aplauso, o espetáculo está por toda parte”, “Quanto mais eu faço revolução, mais quero fazer amor. Quanto mais faço amor, mais quero fazer revolução”, “A poesia está nas ruas”, “Mesmo se Deus existisse seria necessário aboli-lo”, “Trabalhadores de todo o mundo, divirtam-se” - o 68 francês foi pródigo em frases de efeito, em unir contestação radical e criatividade. Essa característica não encontrava abrigo nos espaços convencionais de oposição (o Partido Comunista e os sindicatos). Eram necessárias novas formas de organização política e de ação coletiva. O espírito de 68 era o de suprimir as esferas separadas de “trabalho” e “lazer”, “vida” e “arte”, em direção a um continuum espontâneo que aglomeraria liberdade, autonomia pessoal e internacionalismo.
A pré-história dos protestos em Paris teve dois eventos que merecem ser relevados. O primeiro deles em 1966, quando uma chapa de alunos concorreu ao Diretório Acadêmico da Universidade de Estrasburgo com a plataforma de acabar com o próprio Diretório. Eles foram eleitos, e recorreram à Internacional Situacionista, um grupo de agitadores políticos (dentre eles, Guy Debord), para levar a cabo seu plano. Publicaram, então, esgotando os recursos do Diretório, uma edição de luxo de 10 mil exemplares do panfleto “A Miséria do Meio Estudantil – Considerada em Seus Aspectos Econômico, Político, Psicológico, Sexual e, Mais Particularmente, Intelectual, e Sobre Alguns Meios Para Remediá–la”. O texto era uma contundente e provocativa crítica ao papel político dos estudantes na França de então (“os estudantes são as criaturas mais universalmente desprezíveis na França, com exceção dos padres e dos policiais”). Por uma decisão judicial, o diretório foi efetivamente fechado em dezembro daquele ano. O juiz responsável pelo autos do processo escreveu: “os estudantes, ainda há pouco adolescentes, desprovidos de qualquer experiência, com a cabeça repleta de mal digeridas teorias filosóficas, sociais, políticas e econômicas, e sem saberem como dissipar o seu melancólico aborrecimento do dia-a-dia, emitem a vã, orgulhosa e irrisória pretensão de produzir juízos definitivos e indignamente injuriosos sobre os seus condiscípulos e professores, sobre Deus, as religiões, o clero, os governos e os sistemas políticos e sociais do mundo inteiro, e, depois disto, rejeitando qualquer moral e quaisquer entraves legais, não hesitam sequer em louvar o roubo, a destruição dos estudos, a supressão do trabalho, a subversão total e a revolução mundial proletária ininterrupta a fim de se gozar sem impedimentos”. Sem querer, o juiz acabou por fazer uma apurada caracterização daquela geração de estudantes franceses e contribuiu para a aclamação das idéias situacionistas.
Em 22 de março de 1968, um grupo de 142 estudantes ocupou o prédio da administração da Universidade de Paris em Nanterre, protestando contra a burocracia política que controlava os fundos educacionais na França e pela libertação de um estudante que tinha sido preso por uma manifestação contra a guerra do Vietnã dias antes. Após a publicação de uma carta contendo suas reivindicações, os estudantes desocuparam o prédio, mas os conflitos com a direção da universidade continuaram pelos meses subseqüentes, até que no dia 02 de maio vários estudantes foram expulsos e a universidade fechada.
A resposta estudantil não tardou. No dia seguinte, os estudantes convocaram uma assembléia na Universidade Sorbonne, no Quartier Latin, em Paris. O reitor solicitou a intervenção da força policial para “expulsar os perturbadores”. Após isolar a área e quebrar uma lei que impedia ação policial dentro da universidade, os policiais detiveram cerca de 400 estudantes. No entanto, quando os “perturbadores” estavam sendo transportado para as delegacias, três mil estudantes se agrupavam no exterior da universidade. Às cinco da tarde começou a batalha de rua entre os policiais e os manifestantes. Granadas de gás lacrimogênio foram arremessadas contra a multidão, que respondeu lançando paralelepípedos arrancados da rua. A Sorbonne foi fechada e barricadas foram montadas. A praia começava a ser descoberta.
Nos dias 06 e 10 de maio grandes conflitos envolveram manifestantes e policiais, resultando em centenas de ferimentos e detenções. Percebendo a ameaça que os eventos representavam ao governo, o primeiro-ministro George Pompidou voltou de sua viagem ao Afeganistão e cedeu às reivindicações dos manifestantes: anistia dos estudantes detidos, evacuação das forças policiais do Quartier Latin e reabertura da Sorbonne. Ele acreditava que com isso conseguiria conter a onda de engajamento que tomava conta do país. Ledo engano.
No dia 13, a Sorbonne reaberta foi ocupada pelos estudantes, que a declararam “universidade popular autônoma”. Cerca de um milhão de trabalhadores ocuparam as ruas em trinta cidades francesas, em greve geral convocada pelos sindicatos. Comitês de ocupação e conselhos operários foram formados. Vários liceus, cinemas, teatros, fábricas e universidades foram ocupados nos dias seguintes. O Festival de Cannes teve várias exibições suspensas por cineastas solidários ao movimento. Maio de 68 deixava de ser um fenômeno estudantil para se tornar a maior greve do pós-guerra na Europa, com mais de 10 milhões de trabalhadores, camponeses e estudantes envolvidos, o que representava dois terços da mão-de-obra francesa.
No mesmo dia em que a bolsa de valores parisiense foi incendiada, 24 de maio, o presidente Charles de Gaulle anunciou a realização de um referendum em junho sobre a participação popular no governo. A reação não foi a esperada. Em todo o país, os manifestantes não se mostraram satisfeitos com a proposta, o que fez com que Pompidou começasse uma negociação com os sindicatos no dia seguinte, que acabou por determinar um aumento dos salários, diminuição da idade para aposentadoria e diminuição da carga de trabalho. Mesmo assim, os protestos continuaram.
No dia 30, embalado por uma demonstração de apoio de quase um milhão de pessoas, De Gaulle anunciou a dissolução do congresso, o adiamento do referendum e eleições parlamentares para o mês seguinte.
Junho começou com a polícia evacuando teatros, indústrias e universidades. Vários movimentos de extrema-esquerda foram dissolvidos, e as manifestações foram oficialmente proibidas no período eleitoral. O espírito libertário de maio parecia perder o seu fôlego, o que de fato se confirmou nos resultados das urnas: De Gaulle obteve uma significativa vitória na composição do parlamento.
Mesmo que os alcances políticos dos eventos de 1968 na França tenham sido limitados (afinal, mesmo após a renúncia de De Gaulle, em 1969, George Pompidou foi eleito presidente), resta que, no plano cultural e simbólico, foi a mais contundente contestação da ordem existente na segunda metade do século XX. De uma maneira inusitada, estavam reunidas sob a mesma insatisfação a classe trabalhadora e a intelectualidade francesa. O conceito de participação política foi, também, totalmente reformulado. Os indivíduos demandavam uma revolução que estava nos costumes e nas relações inter-pessoais, e essa revolução não podia ser delegada – eles mesmos precisavam vivê-la.
68 representou uma mudança paradigmática na liberação sexual (com o advento dos anticoncepcionais, a luta pró-aborto, pelo direito das mulheres e sufrágio universal), na oposição dicotômica entre os modelos capitalista e socialista (com a denúncia dos estados comunistas totalitários e a proposição de uma alternativa autônoma e sob auto-gestão), na pedagogia escolar, dentre tantos outros aspectos da vida cotidiana. Ainda que por um breve momento, a praia vislumbrada em 68 se apresentou como utopia possível, uma zona autônoma temporária a ser lembrada a todos aqueles que hoje argumentam que a história acabou.